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Voo cancelado, quarto 614

Tem gente que passa a vida inteira esperando uma desculpa. Eu esperei a minha por trinta e quatro anos. Ela chegou numa terça-feira, às onze e dez da noite, numa letra vermelha piscando no painel do Galeão: CANCELADO.

Recife, portão 22. Tempestade em cima da Baía de Guanabara, raios caindo no mar, pista fechada até segunda ordem. No meu bolso, o convite do casamento do meu melhor amigo, marcado para as quatro da tarde do dia seguinte. Na mão, um copo de café que já tinha esfriado fazia uma hora.

Eu estava xingando baixinho quando ouvi uma risada do meu lado.

— Pode xingar alto. Hoje ninguém vai te julgar aqui.

O homem do portão 22

Eu já tinha visto ele. Na verdade, tinha passado os últimos quarenta minutos fingindo que não estava vendo. Alto, pele morena, cabelo cortado bem curto dos lados, uma camisa branca de botão aberta no colarinho e uma mala de rodinha preta, daquelas que só quem voa muito tem. Sentado duas cadeiras depois da minha, de perna cruzada, lendo alguma coisa no celular com um meio sorriso.

Toda vez que ele levantava os olhos, eu baixava os meus. Um jogo que eu jogava desde a adolescência, e no qual eu sempre perdia do mesmo jeito: olhando para o chão.

— Caio — ele disse, estendendo a mão.

— Bruno.

A mão dele era quente e firme. Ele não soltou de primeira. Eu também não.

Descobri em dez minutos de conversa que ele era comissário de bordo, de folga, voltando para casa em Recife. Que conhecia aquele aeroporto melhor do que a própria sala. E que, numa noite como aquela, sabia exatamente o que fazer.

— Hotel do aeroporto, agora. Daqui a quinze minutos não sobra quarto nem para remédio.

Ele pegou a mala e foi andando. Eu fui atrás, sem pensar muito. Talvez fosse a primeira vez na vida que eu seguia alguém sem pensar muito.

Um quarto só

Ele estava certo. Quando chegamos ao balcão, a fila já dobrava o corredor. Na nossa vez, a recepcionista olhou para a tela, depois para nós dois, e fez aquela cara de quem pede desculpas antes de abrir a boca.

— Tenho um quarto. O último. Cama de casal.

Atrás de nós, um senhor bufou. Uma mulher com duas crianças suspirou alto. Caio virou para mim, apoiou o cotovelo no balcão e falou baixo, só para eu ouvir:

— Eu durmo no chão, se você preferir. Mas não te deixo dormir naquela cadeira de plástico do portão.

— Ninguém vai dormir no chão — eu respondi. E fiquei surpreso com a minha própria voz.

Ele sorriu. Não um sorriso de vitória. Um sorriso de quem tinha entendido alguma coisa antes de mim.

A recepcionista entregou o cartão. Quarto 614.

A conversa que eu nunca tive

O quarto era pequeno, com cheiro de carpete novo e uma janela enorme que dava para a pista. Lá fora, a chuva caía de lado e os relâmpagos acendiam os aviões parados como se fossem fantasmas brancos. Uma cama de casal. Duas mesinhas. Um frigobar com duas cervejas e um pacote de amendoim.

— Jantar de luxo — disse Caio, jogando uma lata para mim.

Sentamos no chão, encostados na cama, de frente para a janela. E conversamos. Sobre o casamento, sobre o amigo que ia casar, sobre como eu tinha sido padrinho, e testemunha, e ombro, e nunca o noivo. Sobre a minha última namorada, que tinha ido embora dizendo que eu parecia estar sempre em outro lugar.

— E estava? — ele perguntou.

Demorei para responder. O trovão respondeu antes de mim.

— Acho que eu estava no lugar onde eu nunca tive coragem de ir.

Caio não disse nada. Só ficou me olhando, com a lata parada no meio do caminho até a boca. E então contou a história dele. De quando tinha vinte anos e se apaixonou por um colega de turma da escola de aviação. De como contou para a família no Natal e ficou dois anos sem falar com o pai. De como hoje o pai liga todo domingo para perguntar se ele está comendo direito.

— O medo é sempre maior do que a coisa — ele disse. — Sempre.

Eu olhei para ele. Para a boca dele. Ele percebeu. Dessa vez, eu não baixei os olhos.

O que a chuva cobriu

Foi ele quem perguntou. Eu sempre vou lembrar disso.

— Posso te beijar?

Eu disse que sim com a cabeça, porque a voz não saiu. E então a boca dele estava na minha, devagar, quase cuidadosa, como se estivesse pedindo licença a cada segundo. A barba dele arranhava meu queixo. A mão dele subiu pela minha nuca e ficou ali, segurando, e eu senti uma coisa se soltar no meu peito, uma coisa que estava presa havia trinta e quatro anos.

Eu beijei de volta com uma fome que me assustou. Ele riu contra a minha boca.

— Calma. A gente tem a noite toda. A tempestade não vai parar tão cedo.

Fomos para a cama sem soltar um do outro. Os botões da camisa dele, um por um, e a pele morena por baixo, quente, com cheiro de perfume e chuva. Ele tirou a minha camiseta pela cabeça e ficou me olhando, sem pressa, como se estivesse decorando. Ninguém nunca tinha me olhado daquele jeito.

Quando ele encostou o corpo no meu, senti o pau dele duro contra a minha coxa, e o meu respondeu na hora, latejando. Ele percebeu e sorriu, com a boca colada na minha orelha.

— Tá vendo? Seu corpo sempre soube.

Ele desceu beijando meu peito, minha barriga, mordendo de leve na linha da cintura, e abriu a minha calça olhando nos meus olhos. Quando a boca dele me envolveu, quente e molhada, eu agarrei o lençol e soltei um gemido que eu não sabia que tinha. Caio me chupava devagar, sem pressa nenhuma, subindo e descendo, parando só para me olhar e ver o que estava fazendo comigo. Eu precisei segurar o rosto dele e pedir para ele parar, ou ia acabar ali mesmo.

Ele subiu de volta e me beijou. Eu senti o meu gosto na boca dele e achei aquilo a coisa mais íntima do mundo.

— Agora eu — eu disse.

Eu nunca tinha feito aquilo, e não escondi. Ele não me apressou. Guiou minha mão, depois minha boca, e foi falando baixinho, me dizendo do que gostava, rindo junto quando eu errava o ritmo, gemendo meu nome quando eu acertava. Ouvir um homem gemer meu nome daquele jeito foi o que acabou de derrubar qualquer parede que ainda estava de pé.

Na nécessaire de quem voa

Em algum momento, ele se levantou, foi até a mala de rodinha e voltou com uma nécessaire pequena de couro. Tirou de lá um preservativo e um frasco de lubrificante.

— Ossos do ofício — disse, meio sem graça. — Quem passa a vida em hotel aprende a nunca sair sem o básico.

E eu, que tinha passado a vida inteira com medo de não saber o que fazer, senti um alívio enorme. Ele sabia. Ele cuidava. E não fazia disso um discurso.

— Quer? — ele perguntou, segurando minha mão. — A gente pode parar aqui. Já foi muito.

— Quero.

Ele foi devagar. Muito devagar. Bastante lubrificante, os dedos primeiro, a boca no meu pescoço, perguntando a cada passo se estava bom. Quando ele finalmente meteu, eu prendi a respiração, e ele parou. Esperou. Esperou meu corpo relaxar, me beijando, sussurrando que estava tudo bem. E então aquilo que era pressão virou calor, e o calor virou uma onda que subia pela minha espinha.

O ritmo foi crescendo junto com a chuva. Os quadris dele contra os meus, a cama batendo de leve na parede, os relâmpagos iluminando o quarto por um segundo e mostrando o rosto dele em cima do meu, suado, os olhos meio fechados. Ele pegou meu pau com a mão e foi me tocando no mesmo ritmo, e eu não aguentei. Gozei agarrado nas costas dele, com o rosto enterrado no ombro, tremendo inteiro. Ele gozou logo depois, com um gemido rouco no meu ouvido e os dedos cravados na minha cintura.

Ficamos deitados muito tempo, ofegantes, ouvindo a chuva diminuir. Ele traçava círculos no meu peito com a ponta do dedo.

— Tudo bem? — perguntou.

Eu ri. Ri de verdade, alto, de um jeito que não ria fazia anos.

— Tudo bem. Pela primeira vez, acho que tudo bem.

Cinco e meia da manhã

O celular dele vibrou às cinco e meia. Mensagem da companhia: voo remarcado para as sete e quarenta. O mesmo voo. As mesmas duas poltronas, uma ao lado da outra, que nenhum dos dois tinha escolhido.

Tomamos banho juntos, rindo do chuveiro que não esquentava. Descemos para o café, e eu me peguei olhando para ele por cima da xícara como quem olha para um lugar que acabou de descobrir que existe.

No avião, ele dormiu no meu ombro antes da decolagem. A comissária, colega dele, passou, olhou para nós dois e piscou para mim.

Cheguei ao casamento às três e meia. Na hora dos padrinhos, meu amigo me abraçou e disse no meu ouvido:

— Que cara é essa? Parece outra pessoa.

E eu, pela primeira vez em trinta e quatro anos, não menti.

— Eu sou outra pessoa.

No meu celular, uma mensagem de um número novo: "Volto pro Rio sexta. Se cancelarem algum voo, você já sabe o quarto."

O que estava na nécessaire

Repara no momento em que tudo poderia ter parado. Não foi o medo, nem a dúvida, nem o "e se". Foi uma nécessaire pequena, com um preservativo e um frasco de lubrificante. Por causa dela, a noite do quarto 614 não terminou num beijo e numa corrida até a farmácia.

Estar preparado não mata a espontaneidade. É o que deixa ela acontecer. E o básico cabe em qualquer bolso:

  • Preservativos: na carteira, na mala, na gaveta da mesa de cabeceira. Ver preservativos
  • Lubrificante siliconado: no sexo anal, lubrificante não é opcional. O siliconado dura mais e combina com o preservativo. Ver lubrificantes siliconados
  • Gel anal: textura mais densa, pensada para deixar a primeira vez, e todas as outras, mais confortável. Ver géis anais
  • Plug anal: para quem quer se conhecer melhor sozinho antes da próxima tempestade. Ver plugs anais
  • Anel peniano: pequeno, cabe na nécessaire e faz a noite render mais. Ver anéis penianos

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